segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Resenha de "Reino das Névoas" no Leitura Escrita, por Ana Carolina Silveira

A Ana Carolina Silveira escreveu em seu blog Leitura Escrita uma bela resenha de Reino das Névoas. Isso foi em novembro passado, mas só hoje entrei para atualizar este blog, que está parado há um bom tempo. Faz de conta que eu estava de férias (quem me dera). Então, reproduzo abaixo o texto de Ana:

A proposta desse livro é trazer “contos de fadas para adultos”. Não que, em sua origem, contos de fada tenham sido histórias infantis, como a própria autora esclarece no prefácio: eram histórias moralizantes, que davam conselhos e a punição de maus atos, principalmente para adultos ou jovens em formação para a vida. As versões que conhecemos hoje, de certa forma pasteurizadas, surgiram a partir dos trabalhos dos Irmãos Grimm e de Charles Perrault, que recolheram essas histórias e as recontaram de maneira mais leve. 
Mas o “para adultos” do título também pode ter uma outra interpretação. Não diz respeito apenas a cenas de sexo e violência mais cruas, mas ao que acho principal no fato de ser adulto: ter de fazer escolhas, nem todas fáceis, nem todas simples, e viver com o peso de suas consequências. Sabem aquela história batida dos grandes poderes e grandes responsabilidades? Mais ou menos isso. 
Então, com essas prerrogativas em mente, a autora traz uma coleção de contos de fadas modernizados – e deliciosos, li o livro em uma tarde, não conseguia largá-lo – e adultos. Toda aquela atmosfera mágica de contos de fada está presente e a narrativa é simplesmente deliciosa de se acompanhar. A autora conseguiu pegar o espírito dos contos que lhe servem de inspiração, alguns deles até mesmo recontados aqui, como A Bela Adormecida, Chapeuzinho Vermelho, Branca de Neve e mesmo A Bela e a Fera (evidentemente não a versão da Disney). Outro ponto forte são as ilustrações para cada conto, também obra da autora (que é ilustradora), afinal um livro de contos de fadas não poderia passar sem ilustrações, poderia?
Três temas são de certa forma comum entre os contos: o primeiro deles, como adiantado anteriormente, o peso de fazer escolhas e sofrer suas consequências (que não necessariamente serão boas); o segundo é a da posição de ser mulher, de ter poder sobre o próprio corpo e sobre a vida, e sobre o quanto este poder pode ser retirado à força por uma sociedade que preza um conceito deturpado de masculinidade; e o terceiro a ecologia, principalmente no trato respeitoso com as outras espécies animais (reais ou fantásticas). 
Talvez o conto que sintetize melhor todo o espírito do livro seja a noveleta que o nomeia, Reino das Névoas: uma espécie de recontagem da história da Branca de Neve (mas com elementos de histórias como Chapeuzinho Vermelho e A Bela e a Fera, ou mesmo de outras histórias como a lenda da Condessa Bathory), onde a mocinha tem de fazer a transição da inocência da infância para o pragmatismo adulto, mas isso não ocorrerá sem lágrimas, danos e violência (física e sexual). É sobre as dores de tomar as rédeas da própria vida, o que nunca é simples, fácil e indolor, mas cujo resultado acaba por compensar as dores – só que todo dano poderá ser resgatado ao se descobrir a verdadeira natureza do eu? 
Enfim, esse é um livro que só tem um defeito grave, gravíssimo, aliás: é muito curto!!!! As histórias acabam tão rápido quando uma tarde de verão envolta em brincadeiras e os contos são tão bem-trabalhados que não se quer parar de ler. Fica a sugestão para um volume 2.
Foi para mim uma das maiores surpresas do ano, recomendadíssimo a todos os leitores que querem reviver antigos contos, mas com novo olhar.
Obrigada, Ana, pelas belas palavras!

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Resenha de "Reino das Névoas" no blogue A Estrada Anil

A Rita Paschoalin passou o feriado chuvoso de 15 de novembro na companha de Reino das Névoas. Dessa união, nasceu uma belíssima resenha, que ela publicou em seu blogue A Estrada Anil e que eu reproduzo abaixo.

E se Branca de Neve não dependesse do príncipe para escrever seu destino? E se, sozinha, voltasse ao reino onde antes vivera para consertar os desmandos da Rainha vaidosa? E se o Lobo fosse um forte aliado da Chapeuzinho Vermelho? E se o sapo-príncipe tivesse um destino bem menos atraente do que ser resgatado de sua triste sina por um beijo esperançoso? Em Reino das Névoas (Tarja Editorial), Camila Fernandes cria e reinventa contos de fada e nos convida a conhecer outras faces possíveis de algumas histórias que nos acompanharam em nossa infância. O resultado são sete contos que, como adverte a autora, devem ser mantidos "fora do alcance das crianças". É que alguns dos elementos presentes nas histórias de Camila são um tanto mais, hum, picantes do que cavalos brancos e maçãs envenenadas. Cabeças rolam e nem toda princesa é uma fonte de inocência e "pureza". 

Eu gostaria de ser capaz de captar todas as referências presentes no livro. O mundo dos contos de fada é vasto e não faço ideia do quanto existe por aí que nunca li ou ouvi. Assim, não sei se todos os contos da Camila remetem a alguma história já existente. Talvez não, talvez alguns tenham sido inteiramente criados por ela. Reconheço alguns elementos, mas nem toda história me pareceu familiar. Isso nem de longe é um problema, no entanto. Lê-se com prazer cada um dos contos, conhecendo-se ou não as fontes que inspiraram a autora. 

São sete contos. Meu favorito é o último, que dá nome ao livro. É a história da Princesa Niev e do Príncipe Lobo, a mais longa da coletânea. Enquanto Branca de Neve dança com os passarinhos, a vida de Niev tem aventuras de gente grande. E como nenhum príncipe virá beijá-la, é melhor mesmo crescer e tomar as rédeas da história (nada contra os passarinhos da Branca de Neve, fofinhos). Também gostei do conto que abre o livro, "O Chifre Negro" - e agora também tenho um unicórnio pra chamar de meu, eu que vivo em meio aos unicórnios cor-de-rosa da minha filha. "A Torre Onde Ela Dorme" e "A Outra Margem do Rio" me fizeram lembrar de histórias que integravam um dos volumes das Obras Completas de Monteiro Lobato que tínhamos lá em casa, em minha infância. Além das histórias de Lobato, o livro trazia fábulas e alguns contos de fada. Lembro-me de algumas histórias bem trágicas, com princesas trancafiadas por anos e anos à espera de que algum guerreiro derrotasse um monstro terrível que as matinha prisioneiras; ou do pai que vendia as filhas para não morrer de fome. Os finais, contudo, eram invariavelmente mágicos e tudo consertavam. Já nos textos da Camila, a felicidade pode cobrar preços altos e irremediáveis, e não há garantias de que o sapo terá tempo de virar príncipe.

O título deste post é o subtítulo do livro. Dá a exata dimensão do que se esperar da leitura: uma viagem ao mundo do fantástico, da magia e dos amores improváveis. No caso de Reino das Névoas, com generosas pitadas de girl power - as princesas não estão para brincadeira. Cada história do livro é precedida por uma ilustração feita pela própria autora,  que também fez essa capa lindona aí. O livro é um mimo. Cheia de talentos essa Camila. 
Rita Paschoalin, escritora e tradutora

Obrigada, Rita! Fico feliz que tenha gostado da leitura. ;-)

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Do Poder de um Diário, Livros Bons e Cliente de TCC

Esse é o título de um excelente texto da Carol Chiovatto, escritora e publicitária, no qual ela conta por que recomenda a todos os escritores que tenham um diário, comenta os últimos bons livros que leu e revela seu adorado cliente de TCC.

Mas este blogue não é sobre Reino das Névoas? Onde é que entra o Reino nisso tudo?

Reino das Névoas é um dos "Livros que são tão bons que me comovem" citados pela autora. Carol nunca escreveu uma resenha para Reino e, segundo ela mesma, nunca escreverá. Mas é sem dúvida a pessoa que mais tem promovido o livro, por uma razão muito simples e honesta: ela leu e gostou.

Eis o que diz:

Agora, não fiz resenha de um livro fantástico que li, mas não suporto a ideia de não falar dele a vocês. Não, continuarei não fazendo resenha do dito cujo, porque não me acho digna de falar dele. Não tenho capacidade de elogiar em palavras humanas Reino das Névoas – Contos de Fadas para Adultos, da autora Camila Fernandes. Estará no 4º Indicações Fantásticas, e provavelmente estarei mais enfática do que de costume nos vídeos (piadas preparadas, eu sei que sou uma caricatura em pessoa falando). Eu só posso dizer uma coisa: quem comprar esse livro não vai se arrepender. Não existe forma de não gostar dele. Você pode não gostar de contos, de contos de fadas, de coisas que contenham conteúdo adulto, mas VAI GOSTAR desse livro. Simplesmente porque ele pega as suas expectativas e destrói todas elas com um sopro de fada, que é escrita da autora. Nada é de mais e nem de menos. Não tem exagero nem eufemismo. É na medida certa.

Se alguém me apontasse uma arma na cabeça e me dissesse para indicar um livro bom ou eu morreria, e eu não fizesse a menor ideia do que o cara gostasse de ler, ou SE ele gostasse de ler, indicaria Reino das Névoas. Simples assim.

Estou exagerando? Compre o livro, leia e depois conversaremos.


Sem graça como estou no momento, eu só posso dizer: obrigada, mais uma vez!...

... e aproveitem para ler o texto completo de Carol Chiovatto e anotar suas dicas de boas leituras. ;-)

Resenha de "Reino das Névoas" no Blog do Pai Nerd

Saiu uma resenha muito culta no Blog do Pai Nerd, escrita por Álvaro Domingues, que também é autor do livro Sombras e Sonhos. Confiram abaixo!


O conceito de infância que temos hoje só surgiu após o estabelecimento da filosofia racionalista do século XVIII, tendo como marco a publicação de O Emílio, de Rosseau. Antes as crianças só se diferenciavam dos adultos pelo tamanho e pelas habilidades. As narrativas, sobretudo de tradição oral, não tinham contornos para evitar ou atenuar passagens mais cruentas e cruéis ou que envolvessem sexualidade. Os Irmãos Grimm, que compilaram a maioria dos contos que conhecemos hoje, fizeram o primeiro filtro, já dentro da visão de que existe uma infância a ser preservada e já influenciados pela ética protestante. Mesmo assim, alguns contos sofreram ainda mais uma censura deles mesmos na segunda edição. Ao longo do tempo, mais e mais atenuações foram introduzidas.



Há ainda outros fatores históricos que mudaram a teor da narrativa. Por exemplo, na Idade Média, o perigo de um ataque de um lobo era real e palpável. Então, a Chapeuzinho Vermelho devia temer mesmo um lobo, sem nenhuma metáfora. Com o passar do tempo, o perigo é um adulto manipulador, que pode ser representado por um lobo.



Contudo, o livro não se propõe a um resgate histórico, nem a criticar a forma como os contos são contados hoje para as crianças, mas apenas a trazer de volta alguns elementos ausentes para criar uma atmosfera fantástica que abranja alguns fatores importantes do universo adulto.



Ao pegar o livro, a primeira coisa que se nota é que houve um cuidado na edição de emular um livro de contos de fadas de criança, desde a capa, passando pelas ilustrações internas, até o papel, a tipologia dos títulos e do texto e o uso de capitulares.



O texto também guarda similaridade com o dos Irmãos Grimm, mas de uma forma mais fluída e poética, mesmo nas passagens onde há crueldade explícita, e evitando sempre que possível o uso de lugares comuns (inclusive o “Era uma vez...” e o “... viveram felizes para sempre”), o maniqueísmo clássico e o final fechado.



O Chifre Negro

Uma princesa necessita pegar um chifre de unicórnio para salvar o pai. Essa busca a leva a uma série de situações perigosas, cruéis e amargas que a marcam de forma indelével e a levam ao amadurecimento como pessoa. Angustiante.



O Lenhador e a Sombra

Esta talvez seja a mais poética das histórias. Um lenhador solitário encontra uma companhia na floresta. A questão do desapego norteia a condução do conto. Belíssimo.



A Outra Margem do Rio

Duas cidades separadas por um rio e pelo preconceito. Um pai leva o filho para um casamento com uma noiva do outro lado. Acontecimentos trágicos marcam essa travessia. A questão do que é realmente importante dá o tom.



A Torre onde ela dorme

Uma princesa tem muitas habilidades e só aceita casar-se com um homem que a vença. Pela inveja de seus pretendentes, é condenada a dormir um sono eterno até que seja vencida por um homem. Esta é uma versão da história da Bela Adormecida, com um príncipe nem um pouco nobre. Surpreendente.



A Filha do Fidalgo

Uma jovem fantasia que um sapo que encontra em seu quarto, se beijado, se tornaria um príncipe. Será?



A Espera

Uma metáfora para a busca da felicidade a partir de esperanças vãs, que na realidade nos impedem de ver que ela está ao alcance da mão.



Reino de Névoas
Uma Branca de Neve não tão pura e não tão indefesa. O conto mais longo e também o mais movimentado. O melhor da coletânea.



O resultado geral é muito bom, atingindo plenamente o os objetivos da autora.
Álvaro Domingues, escritor

Obrigada pelas palavras, Álvaro! Fico feliz que você tenha gostado do livro!

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Resenha da CAPA de "Reino das Névoas", por Alliah

Não, você não leu errado. É uma resenha da capa. Ideia original da Alliah, artista plástica e escritora, que inaugurou seu blogue, Resenhando Capas, com uma resenha da capa de Reino das Névoas. E deixou esta sua quase-colega de profissão muito honrada e grata. Confiram!

A primeira resenha do blog vai pra capa do livro de contos da Camila Fernandes, “Reino das Névoas”, lançado esse ano pela Tarja.
Escolhi essa obra para inaugurar o Resenhando Capas por dois motivos. Primeiro porque eu amei o livro, tanto os contos, quanto as ilustrações. E segundo porque a análise dessa capa vai ser um tanto quanto didática, o que vai servir como uma boa introdução pra quem caiu de pára-quedas nessa exposição virtual.
Três elementos me chamaram a atenção nessa capa. E são eles as cores predominantes na arte. Amarelo/dourado, vermelho e azul. E o que essa tríade grita aos meus olhos é “Realeza!”. Nada mais adequado para um livro de contos de fada! A percepção das cores, apesar de baseada em sólidas teorias, é bastante subjetiva. Mas aqui a questão é histórica mesmo. Vamos por partes.
Primeiro o amarelo/dourado. Sempre que me deparo com tons dourados numa capa de livro, um alerta acende na minha cabeça. Eu já começo achando que vai dar errado, e na maioria das vezes dá realmente muito errado. Mas aqui funcionou, e bem. Por que o alerta e o que a Mila fez aqui que muito (wannabe) capista não faz? Ela soube dosar o tom e mimetizar o brilho. Como estamos tratando de cor pigmento, o dourado simplesmente não existe. Ele é alcançado com artifícios. A cor natural do metal ouro, que é amarelo e varia bastante, nos é característica devido ao brilho que a superfície metálica reflete. Como se aproximar disso num suporte de papel com pigmento? Sabendo usar técnicas de iluminação. Que, por sinal, foram as responsáveis por deixar a capa, em sua totalidade, tão atraente. O título amarelo tem um ótimo destaque do restante da capa. Muitas artes falham nesse aspecto, deixando as
Lápis-lazúli polido.
bordas das letras se fundirem ao fundo ou escolhendo mal os tons das cores que se contrapõem. O amarelo/dourado escurecido que aparece nas laterais e emoldura a ilustração possui uma textura (que eu acredito que tenha sido feita com base na pena de pavão, mas me corrija se eu estiver errada, Mila) que me lembrou o Egito. Não, não tem Egito nenhum no livro. Talvez as linhas circulares, oculares… Olho de pavão. Olho de Hórus. Pode ser viagem minha. Mas é provável que essa sensação se explique pelo contraste com o azul. Vamos a ele. 
A borboleta azul é meu elemento preferido de toda a capa. É, pois é, esse pequeno detalhe. Não porque é o único elemento azul. Porque não é. Tem azul no fundo.
Máscara mortuária de Tutankhamon. Quilos de ouro e lápis-lazúli.
 
Tem azul na lâmina da adaga. Mas o azul forte e intenso da borboleta me lembrou do lápis-lazúli. (Aliás, no conto que dá nome ao livro a borboleta é descrita como possuindo uma coloração lápis-lazúli). O lápis-lazúli é uma pedra que foi largamente usada em joalherias e amuletos no Egito Antigo. E é dela que vem o pigmento azul ultramarino.
O pigmento era o preferido de muitos artistas europeus dos séculos XIV, XV, XVI e XVII e era caríssimo. Tanto que era reservado para ser usado apenas em partes importantes de uma pintura. (Eu entendo bem esse tipo de frescurite com material. Alguns dias atrás eu precisava terminar um trabalho e tava quase vendendo a alma por um pastel seco amarelo cádmio. E olha que nem é caro. Mas depois da necessidade, juro que se alguém saísse gastando o material indiscriminadamente eu ia até chorar de desgosto). Bem, depois dessa época sofrida veio a indústria química, criou o ultramarino sintético com um tom mais vívido, e resolveu o problema.
Ultramarino sintético.
Ultramarino natural.
Esse azul da borboleta é bastante ultramarino sintético. Lindíssimo, não?
O vermelho fechado da capa que cobre a cabeça e os ombros da personagem é puxado pro carmim, a cor dos rubis. Esse capuz é bastante delicado e funciona tanto para o rosto da personagem quanto para a roupa, muito bem colorida e sombreada.
Ouro, lápis-lazúli e rubi. Quer mais realeza que isso? ;)
O fundo azul-acinzentado é um foco de luz que ilumina o que poderia ser uma textura de parede ou vários troncos de árvores. Ou o que mais você enxergar. A beleza do abstrato é como sua mente o percebe. Mas a chave do fundo é que ele destaca a personagem em primeiro plano. As proporções do corpo são bastante femininas, suaves e equilibradas. O jogo de sombras afinando a cintura e destacando os seios e o rosto deu profundidade à expressão na face da mulher. O contraponto dos gestos, de um lado braço relaxado e mão tensionada, do outro, braço tensionado e mão relaxada terminou de equilibrar o conjunto da capa. Esse tipo de equilíbrio gestual é típico da escultura, onde o peso da matéria-prima obriga o artista a criar uma pose obedecendo a seu centro de gravidade. (Ou compensando-o com adicionais. Sabe aquelas esculturas que tem um bloco de pedra perto dos pés da figura? Equilíbrio. Ou quando a figura está segurando uma lança ou qualquer objeto semelhante? Equilíbrio). As mesmas técnicas podem ser aplicadas para se fazer um bom desenho de figura humana. E em se tratando de equilíbrio, estamos falando também de design, o fator crucial para fazer com que uma capa de livro seja agradável aos nossos olhos.
Finalizando, posso acrescentar que a arte possui um último e importante detalhe que eu já vi muita gente errando a mão. Nitidez, gente, nitidez! É disso que uma arte digital precisa pra não parecer um borrão mal photoshopado.
Mila, parabéns pela arte!
E então, delicinhas, o que acharam? Mais teoria? Menos teoria? Gritem aí nos comentários!







Eu A-DO-REI. OK, sou suspeita. Ou pelo menos o meu lado narcisista o é. Mas o fato é que todos os meus lados adoraram. ^ ^

Não conheço nenhum blog que resenhe capas. Este aqui promete ser uma sensação, ainda mais com os  conhecimentos de arte da Alliah!

Uma digressão sobre a arte egípcia: escavações arqueológicas já gastas pelo tempo enfluenciaram o visual dos filmes, que por sua vez influenciou a visão geral de que o Egito seria uma coisa cheia de construções cor de areia, grandiosas, sim, mas em tons de bege e amarelo, no máximo um douradinho, quase camufladas no deserto. Mas os egípcios gostavam mesmo é de cor! Os que podiam pagar por isso usavam maquiagem e tinham casas com interiores decorados em cores vivas, com paredes e colunas cheias de desenhos figurativos e estilizados. Como você muito bem apontou, usavam pigmentos de diversas origens, incluindo o lápis-lazuli. Pigmentos eram feitos de forma artesanal e, portanto, eram caros. Ter objetos de arte e trajes coloridos era sinônimo de alto poder aquisitivo, portanto, coisa da realeza mesmo! XD

Agora uma digressãozinha sobre minha própria ilustração: raramente uso teorias artísticas para criar meus trabalhos, e também não as usei nesse. Muito embora eu saiba que deveria usá-las, sim. Talvez por não ter muito embasamento acadêmico e ser muito autodidata, na hora de criar eu acabo seguindo meu "feeling", confiando no meu olho. O que não significa que eu despreze as noções acadêmicas, nem que não estude tudo o que posso para fazer melhor o meu trabalho. :-)

Quanto às bordas douradas, realmente lembram as penas de pavão, mas acho que é por causa das pinceladas circulares. Essas faixas foram extraídas da fotografia de uma tela pintada displicentemente com tinta de ouro. Daí o efeito realista. ;-)

Eu tenho cá meus próprios segredos sobre a execução dessa capa, alguns deles cômicos... mas ainda não sei se convém revelá-los.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

"Reino das Névoas" no Papo Fantástica!

Pessoal! Acaba de ir para o ar o episódio 4.4 do Papo Fantástica. Neste episódio do podcast, tive o provilégio de conversar com a equipe da Revista Fantástica sobre meu livro e outros projetos dos quais faço parte. Clique aqui e ouça!


Valeu, Fantástica!

Resenha de "Reino das Névoas" da Carta Capital

Semana passada saiu uma fantástica resenha do livro na Carta Capital online, pelo editor, escritor e crítico literário Antonio Luiz Costa. Antonio teve o cuidado de analisar conto por conto e incluir no texto ilustrações que publiquei aqui no blog. Baita divulgação, hein? E uma surpresa, também! Confiram abaixo.

Contos de fadas que crescem com o leitor

'Reino das Névoas', de Camila Fernandes, recria contos tradicionais e inventa outros, estendendo uma ponte entre o imaginário das ex-princesinhas e o mundo real

Era uma vez uma menina que gostava de contos de fadas, principalmente nas versões melosas da Disney. Mas e depois que cresceu e descobriu que a vida é mais complicada do que casar-se com um príncipe e ser feliz para sempre? Revisitar esse mundo de ilusões infantis com um olhar mais adulto, ou pelo menos mais irônico, tem sido um tema comum na literatura de fantasia moderna a ponto de já ter gerado produtos para a indústria cultural de massas, da série de animação Shrek a muitos dos sucessos de Neil Gaiman.

Numa perspectiva mais pessoal e artesanal, Reino das Névoas (Tarja Editorial, R$ 30, 168 págs.), de Camila Fernandes, antologia editada com apoio do Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo, recria contos tradicionais e inventa outros, estendendo uma ponte entre o imaginário das ex-princesinhas e o mundo real da existência adulta. Tem o subtítulo de “Contos de Fadas para Adultos”, mas o tom e o conteúdo falam mais a adolescentes e adultas jovens.

Há cenas de violência, inclusive sexual, mas tratadas com sensibilidade. A raiva, em muitos desses contos, anda de mãos dadas com o amor como um sentimento vital e adulto, indispensável ao equilíbrio emocional e à busca da justiça. É uma noção de sabedoria tradicional presente em muitos contos tradicionais e que convém relembrar ante a obsessão dos bem-intencionados por livros que promovem “sentimentos construtivos” e ignoram os conflitos reais, gerando de um lado uma literatura falsa e tediosa e de outro a contrapartida inevitável de estimular o gosto pela brutalidade e pelo cinismo “proibidos”, mas facilmente disponíveis no mercado.

Linguagem e a narrativa são simples e lineares, mas bem cuidadas, como nas versões clássicas das antologias dos irmãos Grimm, de Andersen e de Perrault. Como nas melhores edições destas, são acompanhadas de belas ilustrações, que como a capa, são trabalhos da própria autora.
Reprodução

Eis uma amostra de prosa, do conto que dá o título à antologia, inspira-lhe a capa e é o último e mais extenso – na verdade, uma pequena novela:

“A rainha Nuura não tinha paciência para longas narrativas. Encomendara para o quarto somente as três faixas que cobriam sua parede. Para ela, a história do reino resumia-se a isto: uma comitiva de cavaleiros chegando com suas espadas e com seus cavalos brancos; os reis antigos e fracos entregando a chave do reino às mãos de seu pai, estando ela, ainda princesa, altaneira ao lado dele; por fim, seu casamento com um príncipe e a coroação dos dois como senhores daquele país, agora pacificado. Os detalhes da história não interessavam nem a seus olhos nem a seu orgulho”.

É uma rainha para a qual só importa a façanha da conquista, o casamento e ser feliz para sempre. E apesar de ter ficado viúva, até certo ponto o consegue, arrebatando rapazes para serem seus escravos sexuais durante longos períodos e depois os sacrificando para prolongar indefinidamente sua juventude e seu domínio sobre o reino. Quem é ela? Claro que é a Rainha Má. Mas a filha não é bem a Branca de Neve: tem traços tanto dela quanto de Chapeuzinho Vermelho, mas consegue superar tanto a passividade da primeira quanto a ingenuidade da segunda ao encontrar o Caçador, os Anões, a Vovozinha e o Lobo, cujos papéis são completamente transfigurados.

É interessante que uma obra de teor semelhante publicada originalmente em 2004, a novela O Caçador (Editora Franco, 100 páginas, R$ 22), de Ana Lúcia Merege, também comece pelo conto da Branca de Neve e acabe no de Chapeuzinho Vermelho. Difícil dizer se há influência direta: embora ambas tratem do amadurecimento do protagonista, são completamente diferentes na estrutura e no tom. A novela de Merege é menos sombria e ousada, embora aborde e critique esses e outros contos tradicionais, de maneira mais explícita, mas menos radical, à medida que seu protagonista “Caçador” passa por vários deles. Uma hipótese igualmente provável e mais interessante é que as histórias da Branca e da Chapeuzinho tenham se tornado particularmente problemáticas para a identidade feminina, ou pelo menos da mulher brasileira moderna, de modo que seja especialmente necessário acertar as contas com elas.
Reprodução

A novela “Reino das Névoas” é a narrativa mais complexa desta antologia e que fala mais ao inconsciente coletivo, mas talvez não seja a mais perfeita do ponto de vista da estética e da proposta de dar um tratamento realista aos contos de fadas. Há pequenas incongruências que, a um olhar adulto, lhe prejudicam a verossimilhança. Por exemplo, a família de Nuura, ao tomar o reino, parece ter surgido do nada e o epílogo soa desajeitado, com uma resolução forçada até mesmo pelos padrões dos contos de fadas.

Mais simples e bem-sucedido nesses aspectos é o primeiro conto, “O Chifre Negro”. Inspirado em “A Bela e a Fera”, permanece, do ponto de vista da estrutura, mais próximo do conto original – embora o cenário seja diferente e, neste caso, a Fera não seja horrível e sim mais bela que a Bela. E o final, embora seja consistente com a lógica do conto da Madame Villeneuve, consegue surpreender mais que o da novela que subverte os contos de Grimm.

“O Lenhador e a Sombra” tem inspiração menos óbvia. Lembra um pouco alguns contos populares, mas é provável que tenha sido totalmente inventado. De qualquer maneira, é um bom pequeno conto sobre um lenhador que socorre uma gata e sobre amor e bondade que tem valor em si mesma e não precisa ser recompensada por tesouros ou dons mágicos.

“A Outra Margem do Rio” também parece ser uma história totalmente criada pela autora e é das melhores da coletânea. Um rapaz é conduzido por seu pai a um casamento arranjado com uma jovem de outro reino, mas no caminho um acidente mata o pai e uma bruxa oferece ressuscitá-lo em troca dos belos olhos do jovem. Os resultados são muito interessantes.

“A Torre Onde Ela Dorme” tem como inspiração “A Bela Adormecida”, mas não a versão dos irmãos Grimm, nem a de Perrault. Seu modelo é a hoje quase esquecida versão de Giambattista Basile, também conhecida como “Sol, Lua e Tália”, na qual a princesa é despertada com algo mais rude que um simples beijo. As consequências disto fazem deste o conto mais sinistro e raivoso da coletânea, mas também um dos mais poderosos.

“A Filha do Fidalgo” é um miniconto baseado em “O Príncipe Sapo”, mas menos interessante e inspirado que os demais da antologia. É uma piada irônica, que bem poderia ter sido usada como mais uma gag em Shrek.

“A Espera”, sobre uma princesa à espera de um príncipe que a ajude a abrir uma porta encantada, é um conto também breve. É menos prosaico, mas a história é um tanto esquemática e a lição de moral demasiado óbvia.

Também não está entre os melhores do livro: a autora se sai melhor quando se dá espaço suficiente para que a trama se desenvolva com sua própria lógica, dando espaço a interpretações mais abertas. Isso também permite que o peso dos pormenores incômodos da existência concreta, das contradições da realidade, das decisões e suas consequências sejam sentidos de maneira a dar a essas narrativas – quer os elementos mágicos estejam presentes, quer não – a verossimilhança necessária a uma leitura adulta, sem que percam o frescor e o encanto de um autêntico conto de fadas.

Antonio Luiz M.C.Costa é editor de internacional de CartaCapital e também escreve sobre ciência e ficção científica.

Esta é provavelmente a mais acurada, ainda que não completamente, resenha que “Reino das Névoas” recebeu até agora. Agradeço de coração a Antonio Luiz por mais essa.

Alguns adendos:

O Chifre Negro não se inspira em A Bela e a Fera, mas foi de uma sutileza agradável apontar essa semelhança, que realmente existe.

Foi curioso citar o livro O Caçador, de Ana Lúcia Merege, pois eu ainda não o li. No Fantasticon deste ano, Ana e eu trocamos nossas obras: ganhei seu O Caçador e ela ganhou meu Reino das Névoas.

Já o conto que dá título ao livro foi destrinchado com perfeição ao falar da Rainha, da Avó, do Lobo, do Caçador, dos Anões e da semelhança, proposital e evidente, com Chapeuzinho.

Fico feliz que tenha gostado do livro! :-)